SONOLÊNCIA EXCESSIVA NA CLÍNICA

 

 

A quantidade ideal de sono para um indivíduo é aquela que lhe permite alcançar um nível ideal de vigilância e de forma física no dia seguinte. A necessidade de sono é imperativa e não pode ser eliminada, mas o sono também é um comportamento passível de modificação em função das circunstâncias exteriores. Assim como se pode tomar a decisão de comer mais ou menos, pode-se definir um tempo de sono mais longo ou mais curto. O tempo de sono varia, portanto, de uma noite para a outra e não é um valor fixo. A média de sono nos adultos é de 8 horas. No entanto alguns adultos se contentam com 6 h ou menos e isso sem prejuízos para o dia seguinte. As pessoas que costumam dormir pouco representam 2,5% da população total. Por outro lado, as pessoas que costumam dormir muito (igualmente cerca de 2,5%) só se sentem em forma durante o dia, depois de dormir 10 h, às vezes mais.[1]

A sonolência excessiva (SE) refere-se a uma propensão aumentada ao sono com uma compulsão subjetiva para dormir, crises de sonolência e cochilos involuntários, quando o sono é inapropriado. [2]

As principais causas de sonolência excessiva são:

-  Privação crônica de sono voluntária e involuntária

-  Síndrome das pernas inquietas/ movimentos periódicos dos membros 

-  Síndrome da apnéia/ hipopnéia obstrutiva do sono

-  Drogas e medicamentos

-  Narcolepsia

-  Distúrbios do ritmo circadiano

-  Hipersonia idiopática.

 

1. Privação crônica de sono (PCS)

 

Decorre do fato do indivíduo voluntária ou involuntariamente dormir menos horas do que necessita para se sentir restaurado no dia seguinte.

Nossa sociedade é, cada vez mais, uma sociedade de 24 horas, o que exige um grande número de profissionais trabalhando dia e noite, ininterruptamente.

A luz elétrica trouxe para o nosso cotidiano o uso da televisão, trabalho noturno, estudos e compromissos sociais e como conseqüência menos horas de sono e sonolência no dia seguinte. Vivemos em uma sociedade na qual o sono tem pouco valor. Muitas vezes ele é encarado como uma perda de tempo, ou é objeto de um julgamento negativo. A PCS involuntária pode ocorrer por causas não médicas: ruídos, luz, colchão inadequado, temperatura inadequada, parceiros roncadores ou que se movimentam muito, filhos pequenos, posicionamento inadequado, má higiene do sono e por causas médicas provocando insônia, ou fragmentação do sono: depressão, ansiedade, doenças dolorosas, doenças cardíacas, pernas inquietas, transtornos respiratórios do sono, efeitos colaterais de medicamentos, Parkinson, Mania, Alzheimer, etc.

 

2. Síndrome das pernas inquietas (SPI)/ Movimentos periódicos dos membros (MPM)

 

A SPI é referida como uma sensação desagradável nas pernas, acompanhada de uma vontade irresistível de movimentá-las, que piora com o repouso e melhora com  a movimentação. É sentida mais freqüentemente na hora que o indivíduo se deita para dormir, provocando enorme dificuldade para o início do sono. O paciente pode voltar a sentir os sintomas quando acorda de madrugada para urinar, ou por outros motivos. Tem a prevalência de 5 a 15% da população geral. O diagnóstico é essencialmente clínico.

Os MPM atinge a 5% das pessoas acima dos 30 anos e chega a 45% dos indivíduos acima dos 60 anos de idade.

A grande maioria (80%) dos pacientes com SPI, apresenta MPM, não sendo o contrário verdadeiro.

Os MPM provocam sonolência diurna por fragmentarem o sono e são diagnosticados por relato do parceiro e pela polissonografia. São movimentos estereotipados dos membros com extensão do hálux, flexão da perna sobre a coxa e dessa sobre o quadril. Movimentos dos mmss podem acompanhar esses movimentos dos mmii

Os dois transtornos podem estar associados a condições como gestação, neuropatia, uremia, anemia ferropriva, retiradas de benzodiazepínicos, uso de antidepressivos tricíclicos, neurolépticos e uso de lítio.[3]

 

3. Síndrome da apnéia/ hipopnéia obstrutiva do sono (SAHOS)

 

É definida como episódios recorrentes de obstrução, parcial (hipopnéias) ou total (apnéias), das vias aéreas superiores durante o sono, resultando em dessaturação da oxihemoglobina e microdespertares. A SAHOS atinge 2 a 6% da população, afetando principalmente homens acima de 40 anos. O diagnóstico da SAHOS é definido com base em critérios clínicos e sua confirmação, intensidade e gravidade, pela polissonografia. Sinais e sintomas: sonolência diurna excessiva, roncos, engasgos e/ ou asfixia ou respiração difícil durante o sono, acordares noturnos recorrentes, sensação de sono não restaurador, fadiga diurna, dificuldade de concentração/ memória, cefaléias matinais, arritmias cardíacas e refluxo gastroesofágico. A gravidade da SAHOS se baseia no grau da SE e no número de eventos obstrutivos por hora de sono[4]

 

4. Drogas e medicamentos

 

A SE pode ser devida ao uso de drogas (maconha, álcool, etc) e inúmeras medicações como tranqüilizantes, hipnóticos, antialérgicos, anticonvulsivantes, antidepressivos, neurolépticos, etc.

 

5. Narcolepsia

 

É uma síndrome que se caracteriza por: 1) ataques irresistíveis de sono durante o dia, 2) cataplexia (perda do tônus muscular frente a emoções fortes boas ou más, localizado ou generalizado, geralmente bilateral), 3) paralisias do sono (o paciente ao acordar, não consegue se mover) e 4) alucinações hipnagógicas ou hipnopômpicas.  Fatores genéticos estão envolvidos com o aparecimento da narcolepsia. Este distúrbio é muito associado a um alelo do complexo maior de histocompatibilidade denominado DQ*0602, o qual pode ser utilizado também como uma ferramenta de diagnóstico, embora a presença desse alelo não seja conclusiva, mas simplesmente um instrumento de apoio ao diagnóstico. A transmissão genética da narcolepsia em humanos não obedece as regras mendelianas, trata-se de uma herança complexa, multifatorial na qual fatores ambientais t6em papel importante. Embora a maioria dos caos seja esporádica e não familiar, o risco de um parente de 1° grau de um paciente narcoléptico ter o mesmo distúrbio é 40 vezes maior que na população em geral.[5] Tem a prevalência de 0.02-0.18% na população em geral considerando E.U.A, Europa e Japão, com início geralmente entre os 18 e os 25 anos de idade. Evidências indicam estar associada a uma deficiência de orexina (hipocretina). Na polissonografia é observada uma diminuição da latência para o início do sono e para o sono REM, aumento da quantidade de sono REM e microacordares frequentes. No teste das múltiplas latências do sono, o início do sono ocorre geralmente nos primeiros cinco minutos e o sono REM apresenta-se em pelo menos dois dos cincos registros.[6]

 

6. Distúrbios do Ritmo Circadiano (DRC)

 

Segundo a Classificação Internacional dos Distúrbios do Sono (CIDS, 1997), os distúrbios do ritmo circadiano do sono “são agrupados, porque dividem uma base fisiocronológica subjacente comum. A principal característica destes distúrbios é o desalinho entre o padrão de sono do paciente e o padrão de sono que é desejado ou visto como a norma social”.  Se dividem em: subtipo exógeno (mudança rápida de fusos horários – em inglês, jet lag – e o distúrbio do sono relacionado ao trabalho em turnos) e endógeno (o distúrbio do sono-vigília diferente de 24 horas, a síndrome da fase avançada do sono, o distúrbio irregular do sono-vigília e a síndrome da fase atrasada do sono).6 Os DRC podem levar à SE principalmente se as pessoas acometidas são obrigadas a se sincronizarem com o ambiente. Na Síndrome do Atraso de Fase o sono está atrasado em relação ao relógio externo, resultando em dificuldade para iniciar e finalizar o sono nos horários desejados. Na Síndrome do Avanço de Fase, o oposto se observa; o sono está antecipado em relação ao relógio externo, levando à SE no início da noite e despertar precoce. Na Síndrome do Ciclo Sono-Vigília de não 24 horas, os indivíduos tendem a dormir em horários irregulares a cada dia. É comum em pessoas cegas. Na Síndrome de Jet-Lag, as pessoas que viajam longas distâncias transmeridional, atravessando vários fusos, de maneira rápida, sentiram dificuldade de iniciar e manter o sono, SE, sintomas gastrointestinais e psicossomáticos. No distúrbio do sono do trabalhador de turno, sintomas como SE, fadiga, alterações gastrointestinais, alterações cognitivas e de desempenho acometem pessoas que invertem o horário de dormir devido ao trabalho noturno.

 

7. Hipersonia primária (HP)

 

A característica essencial da HP é a sonolência excessiva por um período mínimo de 1 mês, evidenciada por episódios prolongados de sono ou por episódios de sono diurno ocorrendo quase que diariamente. Em indivíduos com HP, a duração do principal episódio de sono (para a maioria dos indivíduos, sono noturno) pode variar de 8 a 12 horas, sendo freqüentemente seguido por dificuldade de despertar pela manhã, sendo a qualidade do sono noturno normal.2

 

Consequências da Sonolência Excessiva

 

-  Prejuízos no desempenho escolar, profissional, afetivo e social

-  Déficits  cognitivos e risco aumentado para acidentes.

 

Tratamento da Sonolência Excessiva

 

Deve ser focado nas causas:

Na privação crônica de sono o indivíduo deve ser orientado quanto aos fatores que o impedem de dormir adequadamente, esclarecendo-o sobre o funcionamento e as normas básicas de higiene do sono.

Na síndrome das pernas inquietas/ movimentos periódicos dos membros, estimular a prática de atividades físicas e uso de agentes dopaminérgicos.

Na síndrome da apnéia/ hipopnéia obstrutiva do sono, uso do CPAP (continuous positive airway pressure), além de orientações gerais como: perder peso, posicionamento no leito, elevação da cabeceira e tratamento de rinites e esofagites.

Suspensão/ substituição das drogas causadoras da sonolência excessiva.

Na narcolepsia e na hipersonia primária, uso de estimulantes da vigília.

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


 

[1] Lecendreux M. Sono, Cem perguntas e respostas. Larousse do Brasil,SP. Pg. 148, 2003

[2] Bittencourt LRA e cols.Rev. Bras Psiquiatr.2005:27(supl I):16-21

[3] Chesson AL Jr, Wise M, Davila D, Johnson S, Littner M, Anderson WM, et al. Practice parameters for the treatment of restless legs syndrome and periodic limb movement disorder. An American Academy of Sleep Medicine Report. Standards of Practice Committee of the American Academy of Sleep Medicine. Sleep. 1999;22(7):961-8)

 

[4] Reimão R. Sono estudo abrangente. Ed.Atheneu.2E. SP.1996

[5] Disponível no site: www.sono.org.br. Acessado em 29 de julho de 2006

[6]  ICSD – International classification of sleep disorders: diagnostic and coding manual. Diagnostic Classification Committee. Torphy MJ, chairman. Rochester, Minnesota: American Sleep Disorders Association; 1997